terça-feira , 20 novembro 2018
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Vamos conversar sobre Vodu e Hoodoo, Vida e Morte, de uma forma muito intima…

Deixe-me contar uma historia, dizem que a época dos mortos é o melhor momento para contar historias de mortos e vivos… 

Indo pelos trilhos do trem (ao qual é sagrado para o Ogoun, pois ele é o senhor dos caminhos, e do ferro…), depois de descer uma grande ladeira que vai em direção ao rio, chegamos ao “Cemiterio da Candelaria” (é chamado de Candelária, pois o homem que era dono dessas terras, era um peruano, e ele deu esse nome ao cemiterio, em homenagem a Santa Candelária, santa naquele país.) chego ao Cemitério.

Todos os anos, vou ao cemitério pagar por promessas e renovar votos, junto a Baron, o Loa rei de todos os cemitérios do mundo – loa esse conhecido por tantos nomes… Baron tem vários aspectos, ele pode ser um, e então chamado de Baron, como pode ser vários, ele lega seu poder a outros seres, elevados ao cargo de Baron… Cada Baron é responsável por uma parte do cemitério, para que assim, tudo siga o fluxo natural da natureza, mas Baron é o Rei.

Baron, reina entre os Barões: Papa Baron, conhecido como Baron Samedi, ou Barão do Sábado, o líder do Cemitério, aquele a quem pedimos permissão para entrar no cemitério, aquele que possui todas as chaves do cemitério, sejam de entrada de vivos e mortos, seja a saída deles… ele é o Loa responsável pelo todo, e a quem os outros Barões se reportam… Baron La Croix, é a clemência, ele é a balança entre a vida e a morte, aquele que decide se o homem esta pronto para morrer – receber a morte é uma dadiva – Baron La Croix, é visto como um Loa sábio, que zela pela vida e a admira, ele é representado pelo cruzeiro das almas – cruz principal do cemitério, que existe em todos os cemitérios..; Baron Cemitiere, é o próprio cemitério, a terra, as covas, as lapides, ele quem determina onde o corpo desfalecido irá ser enterrado, em terra boa ou ruim, conforme os atos do defunto… os Loas do cemitério, sabem o dia e a hora que todos irão morrer, e assim destinam o melhor local para o corpo. Os Loas do cemitério, possuem domínio sobre muitos lugares, inclusive no oceanos e mares, onde estão os maiores cemitérios do mundo.

Quando me mudei para o Local onde moro, tive a honra de ser agraciado – e penso que não fui apenas levado, mas também convidado a morar onde moro – com proteção espiritual, aos fundos da chácara onde moro, encontra-se um cemitério muito peculiar, chamado “Cemitério da Candelária” criado no século passado, em 1907, mas que não esta mais ativo.Quando a Cidade em que vivo estava em construção, vieram de vários lugares do mundo, trabalhadores e operários para construir uma ferrovia, que com os anos, foi chamada de “Ferrovia do Diabo”, pois muitos homens morreram durante sua construção em decorrência da malária. Registros dizem que ali, esta enterrado, muito mais de 1.590 mortos, de um numero incontável de nacionalidades: espanhóis, antilhanos, portugueses, gregos, bolivianos, italianos, venezuelanos, colombianos, chineses, turcos, peruanos, barbadianos, alemães, franceses, ingleses, austríacos, árabes, russos, porto-riquenhos, japoneses e dinamarqueses… enterrados ali, e nunca repatriados, nunca seus países reclamaram seus mortos… então um dia, a floresta os pegou para si.

Uma vez por ano, no dia 2 de novembro, tenho uma única função… acender algumas velas, oferecer alguns agrados, e agradecer pelo ano que passou. No momento apelo a clemência de La Croix, e peço proteção espiritual, proteção para minha casa, para meus amigos, para minha família e para meus amigos animais, que residem comigo. Também uma vez por ano – em uma data escolhida a esmo – vou ao local obrigatoriamente, para recolher lixo deixado no lugar.

Assim, os Loas do Cemitério, me permitem viver em segurança, livre do mal dos homens, livre dos males sobrenaturais… pois temos um acordo de coexistência – de alguma forma, morar as margens daquele lugar, me permite conviver com todos os mortos que ali foram enterrados, eles andam por aqui, sentam na mesa conosco, tomam café, participam de nossas vidas, como participamos das deles – coexistência-, alguns momentos, quando as coisas estão complicadas demais naquelas terras onde apenas sou bem vindo em alguns momentos (não sempre), tenho sonhos, e neles me são revelados o que se passa ali.

Antigamente, eu não levava a serio quando alguém me chamada de (ironicamente, grosseiramente, amistosamente, zombateiramente, carinhosamente… cada pessoa por seu motivo) de “Rei do Hoodoo”, o mundo espiritual fala conosco, ele fala comigo o tempo todo, em todos os momentos, inclusive quando durmo, e percebi que talvez possa ser real, isso…

 de ser rei… ser rei não como os reis europeus, que tem cetros de ouro, e tronos ornamentados, mas rei por ter sido escolhido pelo espirito (Loa) para “falar e transmitir algo ao mundo”, concluo isso observando algo que a natureza mostra, as colmeias… nas colmeias existe uma rainha, e quando existe uma colmeia em algum lugar, o local prospera, existe flores, existe verde por todos os lados… e o que isso tem a ver comigo, e como responde o “talvez seja verdade, essa brincadeira de ser rei”, é porque depois que me mudei para essa “casa de muitos caminhos”, para “essa casa de muitos espíritos” tudo ao redor passou a florescer e mudar, o próprio “Cemitério da Candelária” que nunca foi revitalizado, desde sua construção, esta passando por uma linda reforma…

não é por minha causa, não é porque estou aqui, mas é por algo muito mais simples, bonito e singelo… a vida encontra e coexiste com a morte, essa casa de vivos, coexiste e convive com aquela casa de mortos. Em quanto uma prospera, a outra prosperará. E no dia que eu for colhido, e for levado para o orun de meus antepassados, irá nascer outro rei, ou outra rainha, para manter os laços de cordialidade e amistosidade nessas terras onde não existem reis, apenas nós.

Nota: O Cruzeiro de Todas as almas que fica no meio do cemitério, foi feiro com ferro restante dos trilhos do trem… interpreto isso, como “La Croix (a cruz) é o caminho na cidade dos mortos”, pois Ogoun é o Caminho nos mundos dos vivos e no mundo dos mortos que vivem fora do cemitério, e o ferro, também é símbolo de Ogoun… ao visitar La Croix, um Loa que tenho grande apresso, também visito Ogoun, um dos senhores dos meus caminhos e ao mesmo tempo, o senhor do meu caminho…

Kefron Primeiro

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