terça-feira , 23 maio 2017
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Quando eu larguei a Varinha Magica

Nota: Esse texto é uma crônica sobre minha vida, como tudo o que escrevo nesse blogue do site, não é bem sobre hoodoo, conjure, bruxaria ou rootwork, mas de alguma forma esta ligado, não espero ensinar nada nesse texto, mas caso você aprenda algo, ficarei feliz.

Sou descendente de pessoas supersticiosas, pessoas que tem o dom de orar, pessoas que falam com Deus, com santos… e alguns com espíritos. Sou descendente de lideres espirituais.
Ainda sim, boa parte da minha juventude estive em busca de algo que me chamava, algo que me puxava, e por mais que eu buscasse esse algo, não o achava.

Eu, minha prima, minha mãe ae de cabeça baixa e a minha tia Helena (em pé)... <3
Eu, minha prima, minha mãe ae de cabeça baixa e a minha tia Helena (em pé)… <3

Viajei algumas vezes para lugares para receber treinamentos, para conhecer culturas, para ver gente, e sempre de alguma forma encontrava o que procurava, o mundo como um todo na forma que ele se apresentava e se apresenta para mim, sempre foi muito generoso, sempre me concedeu no fim das contas as respostas, como alguém que diz: “saiba isso, porque não é isso ainda…” e de alguma forma também isso era muito chato porque depois de uma resposta respondida e de um objetivo alcançado com sucesso, sempre surgia uma nova pergunta, para uma nova busca. E eu sempre fui muito aventureiro, então sempre dizia a mim mesmo: “Vá lá, vai ser legal, sempre é legal…” e eu ia lá, e sempre era legal, mas no fim das contas, não havia uma grande satisfação – eu me acostumei a sempre receber as respostas de bom grado.
Elizabeth Gilbert em Comer, Rezar e Amar, diz: “Se você tem a coragem de deixar para trás tudo que lhe é familiar e confortável (pode ser qualquer coisa, desde a sua casa aos seus antigos ressentimentos) e embarcar numa jornada em busca da verdade (interna ou externa), e se você tem mesmo a vontade de considerar tudo que acontece nessa jornada como uma pista, e se você aceitar cada um que encontre no caminho como professor, e se estiver preparada, acima de tudo, para encarar (e perdoar) algumas realidades bem difíceis sobre você mesma… então a verdade não lhe será negada.” E isso foi uma constante em minha vida, sempre fui muito honesto com minhas buscas, e assim elas sempre se revelam para mim, concluo após anos, que a busca pela verdade ainda não é para qualquer pessoa, nem todos estão prontos para ela… digo isso porque um dia eu larguei minha varinha.
Quando eu ainda era novo (mais novo), me envolvi em uma busca frenética para entender o que seria a bruxaria moderna, eu queria entender, queria experimentar, experienciar… todos nós jovens, olhamos com vislumbre para o futuro, esperando que ele sempre seja generoso com nossa busca ansiosa por algo.
A maioria das pessoas que chegam na “Bruxaria”, chegam assim: com fome, com muita fome, querendo aprender, querendo ser, querendo esta, e não fui diferente… naquela época eu não ligava muito para os saberes familiares, nem muito menos para aquelas histórias que as minhas tias velhas contavam – a ultima coisa que eu queria era saber as historias das tias (olhe hoje, amo a tia B – e pasme, ela ainda lá do outro lado, me ensina muita coisa)…
Eu estava apaixonado, alias eu estava vivendo um caso de amor com as raízes da Europa, eu adorava tudo o que era europeu, adorava as coisas das “Bruxas”, seus caldeirões, suas poções que faziam milagres (quem não lembra de Tristão e Isolda), eu queria conhecer aqueles Deuses, eles eram intocáveis, mas se faziam tão presentes… mas com o tempo parei pra analisar que aqueles deuses (da Europa), não respondiam, por mais que você queimasse velas, por mais que traçasse circulo magico, por mais que invocasse… por mais que você tivesse um bom, velho e original livro das sombras.
Esse fato começou a me perturbar, porque de alguma forma as coisas não funcionavam. Então comecei a lembrar dos valores do sangue, digo sangue e me refiro a família, afinal, no fim das contas qualquer coisa pode ser destruída, menos os laços familiares, menos o sangue… o sangue é a única certeza de que você tem algo no mundo, seja ele palvapel ou não, você vem de algum lugar e volta para esse mesmo lugar, o mundo e a vida são circulares.
Quando eu entendi, ou melhor, percebi que tudo o que eu vinha aprendendo, tentando, a anos, não funcionava, eu parei… acredito que foi um dos maiores choques de realidade que tive em minha vida, porque foi algo engraçado, eu estava apaixonado (dessa vez por uma pessoa), então pedi a Afrodite “Por favor, por favor, por favor…” e nada… a única coisa que escutei foi um grande silencio, aquela grande presença da ausência que já falava Rubem Alves, aquela ausência de que ao chegar em casa, só terá algo te esperando: o nada.
Eu aprendi a chamar Afrodite de Erzulie Freda, e depois de um tempo, aprendi que podia chamar Erzulie Freda de Tia B (Tia binoca, a tia Barbara), uma senhora que se foi há muito tempo atrás, mais que as historias de escândalos sexuais perduram ate hoje… então, ao invés de acender uma vela vermelha pedido a afrodite que me traga alguém, hoje acendo uma vela pra Erzulie, na imagem de tia B, então a pessoa vem. Duas coisas que aprendi depois de adulto foi:
Existe grande poder no sangue e também nos nomes. Os Deuses europeus, assim como as religiões europeias não funcionam para mim – pode ser que funcione para outras pessoas, mas para mim, é algo que não funciona – continuando a caminhada, tudo foi ganhando traços novos, formas novas… as ervas que antes eu usava para certas coisas, já não tinham a mesma utilidade, já não trabalhavam da mesma forma. Aprendi que existe duas nações feiticeiras (digamos assim), uma feita de pessoas com sangue branco e uma de pessoas negras, e que os deuses de cada uma dessa nação, respondem apenas ao sangue ao qual a pessoa pertence, foi a partir desse meu entendimento que parei de queimar vela boa pra santo ruim.
Quando eu aprendi a conjurar, quando eu aprendi que minhas palavras, minhas mãos, meu coração, minha voz, eram o poder, automaticamente eu percebi que não há poder na varinha, o poder sempre esteve em mim, eu só estava perdendo tempo tentando dar poder a alguma coisa pra que essa coisa me desse poder de volta, acredito que a única coisa que fiz foi, parar de cortar caminho, eu entendi que o que falavam “O ser humano gosta de complicar…” eu entendi que a varinha não passava de uma pedaço de madeira que usavam para riscar o chão, mas que todo o poder saia do corpo da pessoa, talvez do plexo solar… então eu parei com todas essas coisas, e quando eu parei sabe o que aconteceu? A vida deu uma aliviada tão grande… todo aquele peso da busca, eu coloquei de lado e consegui respirar um pouco de ar, olhei para aquilo tudo e agradeci, agradeci e segui em frente.
Hoje eu não sou mais a pessoa que eu era antes, eu consigo olhar para mim mais novo com uma mente adulta – me olho com compacidão, por que eu fui um adolescente muito difícil, consigo me avaliar como um buscador, um buscador que decidiu voltar pra casa – e sabe o que é engraçado, as historias da minha família, as crenças, as peculiaridades, são tão interessantes, eu fico feliz de ter percebido a tempo o quando eu estava perdendo, agora irei me dedicar a isso, a chamar as coisas pelos nomes, e a valorizar o sangue, valorizar o meu sangue, sou descendente de lideres espirituais, e honrarei aos meus lideres, porque são meus…
Eu sou benzedeiro por direito de nascença, tenho avós que são responsáveis por uma casa de tambo de mina, o que me tornaria tornaria por direito de nascença também um bruxo hereditário, mas essas coisas não são importantes, e eu não quero assumir essas coisas (não ainda, acho que não estou pronto para isso…), acredito que me encontrei quando me afirmei como Rootworker, por trabalhar com curas e orientação espiritual, e Conjure por trabalhar com espíritos, santos, lwas e seres que vivem do outro lado.

Quando eu larguei a varinha, eu voltei pra casa… descobrimos coisas sobre nós mesmos todos os dias, o que você pode me dizer sobre você? caso queira me contar (de forma pessoal e apenas para mim, me envia um email, vou ficar muito feliz de saber sua história, conjurebr@icloud.com )

Kefron.

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